06 Novembro 2009
Silence is a power and tool, for you, for you
Wild Tigers I Have Known, they see me down, messin' around.
You keep your heart from your chest,
It'll be gone, just like the rest,
Cause it's a man's world, say all the right words, and hold your heart from your chest,
The silence and the call, and their beauty, stands right and still for you.
Holding flames holding hands and hearts, and their bindings held tightly.
Lyin' in the shady grass, their teeth grinding, insight is foreign,
Cause it's the magic hand, that holds you gently, and turns one into man,
And their insight is bloody, to reach boldy, for truth spoken from mouth in his name.
There will be wise men singin', bringing you luck now.
There will be wise men singin', bringing you luck now.
There will be wise men, singin' bringing you luck, bringing you luck.
Now it's the precious end of time, hand in pocket, bright light.
Wild tigers I have known, they see me down messin' around.
04 Novembro 2009
Boʊniˈvɛr

Isto adquire um corpo que se afasta da sua fonte, põe-se à disposição de alguém que não conhece esta boca escondida, falsa, entra sob pena de ela não amar o corpo e enviar o erro para alegrar o som. Quem escreve quando se lê o ocultamento de Deus diante da voz?
Isto só é um corpo que escreve a aproximação de sementes más, mas também o veneno delas como impulso de lâminas, rede de silêncio, gotas de ar. Isto não se vai entregar acabado, vai conhecer um escravo e a força que lhe falta no pavor das sombras que a noite delicadamente vai aumentar à sua volta.
[Miguel Branco - Sem título, 2005]
Isto só é um corpo que escreve a aproximação de sementes más, mas também o veneno delas como impulso de lâminas, rede de silêncio, gotas de ar. Isto não se vai entregar acabado, vai conhecer um escravo e a força que lhe falta no pavor das sombras que a noite delicadamente vai aumentar à sua volta.
[Miguel Branco - Sem título, 2005]
02 Novembro 2009
30 Outubro 2009
29 de Outubro

Uma face num espelho não é uma acção, tem sempre o futuro lançado para o medo ou a abertura da cara que não admite nenhuma imagem para dentro do corpo. De facto, todo o espelho indica vários graus de animalidade estática, a escrita praticada contra um corpo silvestre de morte diferente de todos os outros corpos. A cara é puxada para dentro de um poema numa verdadeira união íntima de cada uma das palavras. Há o mergulho de um só dos extremos, uma dedicatória numa inversão que a pele sente agarrar-se. Uma face num espelho não se vê quando se move, sabe só que a cabeça dominante tem o espaço inteiro e a força de ter para si o espaço inteiro.
[Miguel Branco - Sem Título, 2005]
[Miguel Branco - Sem Título, 2005]
28 Outubro 2009
27 Outubro 2009
Scout Niblett está a limpar uma biografia como se tivesse prendido veneno na boca

Todo o meu corpo é um movimento que se abriu por energia com os braços na madeira como talha no princípio da sua boca. Eu sou usado em tubos - placas sobre a luz debaixo do livro. Encontro-me neste espaço para abrir um buraco ao fechar uma imagem de um animal sujo.
Porque não haverá ar para aquele que voa obsessivamente no fundo da atmosfera com fome e sede?
Porque não haverá ar para aquele que voa obsessivamente no fundo da atmosfera com fome e sede?
21 Outubro 2009
19 Outubro 2009
29 Setembro 2009
16 Julho 2009
Cauda

Sabemos da dureza do texto como ele é. Portanto, não é preciso sonhar com a eliminação dos seus estigmas. Sabemos que, diante da fatalidade em que nos alienamos de nós mesmos, não nos é mais permitido afastar das palavras que falam da totalidade do corpo mas do caos do enorme espaço vazio que existe antes delas. O texto tem o modo de ser originário dessa totalidade no problema do devir. Eu não penso o texto como um acontecimento entre outros da história pessoal, articulo-o inversamente com a necessidade oriunda do próprio movimento de realização dessa história no deserto, exaustão, afastamento da própria juventude. Se é possível apreendê-lo numa passagem de um fragmento pela tirania da dor, um futuro numa crença mais severa de mares novamente abertos para todos, então tem de se inscrever o corpo no endurecimento biográfico das palavras encontradas longe dele. É onde está a mão e a morte, ensaia palavras à beira do abismo; onde se escreve sangue com o sangue, relacionado aos mortos e aos seus domínios as cores onde se vêem vivos. Vê-se que eu escrevo como o texto é, dentro do qual o espreita a possibilidade de animalidade contida nas necessidades do corpo quando se estava a formar. O corpo vivo irá confundir-se.
[James Ensor - Tribulations of Saint Anthony, 1887]
[James Ensor - Tribulations of Saint Anthony, 1887]
10 Julho 2009
Metade

Os textos têm grandes animais a partir daí; a ecologia das mãos que as mantêm fieis à terra se a natureza é degradada, a tentativa de a controlar como abertura para a água como barcos sobre quem seus marinheiros perderam o controle. Enquanto o texto continua na sua direcção circular, encontramos aquele cuja fúria cega escreveu externamente aqueles que a escreveram internamente. Isto é uma metade humana; alimento-me do corpo silvestre dos mortos do mesmo modo como os suicidas se alimentam a si mesmos até ao sufoco. De facto, o Inferno é capaz de falar para além do corpo, comer como um humano, devorar como um animal. Vejo como sempre o fiz para não encontrar criaturas dadas para o texto ser violento e escrevo agora sobre o pão precisar do cultivo da terra e o cultivo daquilo que a terra produz. Eu sou amigo do texto sozinho.
09 Julho 2009
08 Julho 2009
N.

De onde provém essa fala da transformação? Transformadora do delírio para uma nova criação, dizendo sempre um maravilhoso não na aceitação abismal de todas as perguntas sem forma que não se podem melhorar. Quando o corpo se quer lembrar de todos os textos que passaram pela boca, dá-se conta de que são os olhos a falar sobre a conservação da existência, porque aparecem no corpo as metáforas cheias de promessas, a tonalidade escatológica dos dias. É importante ver esta tonalidade profética das previsões sobre o futuro; estarei a igualar a diferença que me acompanha, a medir o deserto da ocupação sombria das palavras e o seu retorno, estarei a desviar-me da inversão de Deus e consequente derrota do mal. Tu serás uma boca maior onde não há texto. Há uma abertura do texto como abertura de um mundo que não admite nenhuma palavra, um movimento do corpo localizando na animalidade, e nas forças animais, o nada que torna o texto poroso e que se abre a partir de um mundo sem imagem.
07 Julho 2009
Достое́вский 2

Estou a preparar uma cara num corpo incendiado, uma multidão conhecida nos alicerces do texto onde se escreve um nome novo para separar outros nomes, na consciência dessa obrigação infindável me dar a explicação do que acontece pelos nomes dentro. É uma cara aberta à experimentação, em que a voz se desdobra em várias bocas; os seus ritmos sobressaltados, a carne com a sua paixão silenciosa contra o passado. Uma delas faz-se próxima da escuridão como um movimento da mão fechada noutra mão. As bocas não apagam nada; desde o começo da fala percebo quais os frutos da permanência dos nomes, a realidade observada e a realidade imaginária do momento ruidoso que passa. Com o tempo, o texto mistura-se na medida da fé, contínua e explosiva, e o corpo separa o amor destruído por mim do interior do amor. Esta cara é nova, de dentro vem uma luz e a boca fala da eternidade por dentro de outra boca.
[Gerhard Richter - October 18, 1977, 1988. (50 pinturas, X)]
[Gerhard Richter - October 18, 1977, 1988. (50 pinturas, X)]
06 Julho 2009
Достое́вский

Talvez não exista no texto nenhuma palavra que cause tanto medo e rancor como a morte. O próprio termo "morto" tornou-se sinónimo de rejeição; a recusa de ver o "eu", uma certa desconfiança em relação à palavra quando o que escrevo não são palavras mas partes do espírito do desprendimento. Vejo a toda a hora mortos; o risco da altura de cada um quando se abrem os túmulos, o cheiro deixado pela narrativa da boca, a saliva seca. Os mortos dizem que esta experiência de morte ocorre fora do tempo e que o que é vivido é ilimitado. Sonho de outra forma quando todos acabam no final de cada dia e onde nada há que aparentemente não tenha sido tocado. É um internamento com o caos a ordenar uma alegoria pálida, palavras e gestos que fazem mais do que uma palavra ou gesto.
Na infância, esta rejeição derivava em parte das deformidades físicas naturais, das feridas expostas artesanalmente como o sono o é dentro do corpo. O texto e a pessoa ainda estão esquecidos, mas alguma coisa apareceu.
[David Schutter - After GSMB vRU x6, 2007]
Na infância, esta rejeição derivava em parte das deformidades físicas naturais, das feridas expostas artesanalmente como o sono o é dentro do corpo. O texto e a pessoa ainda estão esquecidos, mas alguma coisa apareceu.
[David Schutter - After GSMB vRU x6, 2007]
05 Julho 2009
Ap 8, 11

Tenta-se sempre dar um sentido de força fabulosa, mágica e fantástica, mas como expressão de fé, de superabundância com sentido. Tenta-se sempre superar os limites da razão num mito que vem do logos. Será preciso inventar uma transcendência que se exerça e se encontre no próprio campo da imanência para alcançar o que deve passar por uma experiência do corpo noutro corpo. O primeiro momento da escrita é, por isso, a partida, o exílio do corpo num texto afastado pelo próprio corpo. Eu escrevo-o; é uma verificação existencial do próprio texto com a aquisição de novos dons, mas também o assalto violento da humanidade para o presente com roubo, violação e morte. Fiz-me texto para que o texto me faça e encontre assim os anjos e demónios que me conhecem, o pavor e o êxtase, a morte do que sou e o crescimento do princípio da inscrição da luz nas mãos. Aqui, a teologia faz-se da beleza que cai do céu e se torna água amarga, que pesa tanto como um texto perdido quando se volta para nós e nos lê.
[Barnett Newman - Canto IV, de 18 Cantos, 1963]
04 Julho 2009
[Sem título]

Trazer o texto da boca para aqui começa nos interditos do quarto. Não há nenhum sinal de reprovação; pelo contrário, há um fim que pode significar tanto indício esplendoroso como ímpeto, fome, vontade de trazer outro texto para a boca. Esta radicalidade tem todas as figuras possíveis, uma harmonização entre a minha respiração e a de Deus, uma actividade com palavras dentro da astrologia da boca abandonada. Eu experimento-me cá em baixo para os outros até à morte. Se na tradução do texto o silêncio chega a ser agressivo, ele assemelha-se ao sangue que escorre dentro do corpo mais cru e violento ou o ar que escolheu ser desabitado ao mesmo tempo que escreve. Há um poder subversivo que se liberta do texto. Não me podes ler sem eu morrer. Iluminado está o corpo do texto.
[Alfred Stieglitz - Equivalents, 1923]
[Alfred Stieglitz - Equivalents, 1923]
03 Julho 2009
02 Julho 2009
Lente

É a duração própria de Deus dentro do texto tocado, a imutabilidade do tempo sem tempo, o que tens nas mãos como ausência de sucessão das mãos para o texto e a duração simultânea das mãos dentro do texto. As palavras são o teu permanecer de uma vez só no futuro, no presente e no passado, são apenas o fugidio instante em que o futuro que ainda não é se escoa no passado que já é. No fundo, não és, vais sendo escondido entre nós os dois como morte com o ser que passa e pode causar incêndio.
[Giovanni Anselmo - Invisible, 1971]
[Giovanni Anselmo - Invisible, 1971]
01 Julho 2009
26 Junho 2009
«Mão»

És mais realista quando és de fora; a figuração do corpo numa história larga, quando é preciso olhar para o mal, onde repousa o rosto quando os olhos se apropriam de toda a diminuição da luz. Eu tenho uma outra imagem de ti quando me cego. Há um corpo que se debruça sobre a sua cabeça, a representação do mesmo pelo mesmo. Tens uma mão espalmada rigidamente codificada na outra mão, mutante, com o seu fim natural, representada numa mesa do nosso lado que não se manifesta fora dos poemas. É dentro dos textos que o teu corpo se apura. Eu já sou o teu texto.
[imagem = Julian Schnabel Maria Callas II, 1982]
[imagem = Julian Schnabel Maria Callas II, 1982]
22 Junho 2009
1

Eu procuro uma proximidade sabendo que a mesma não se transforma em identidade. Há apenas uma partilha do meio e das palavras e uma solidariedade no destino. Encenas a tua transformação com os detritos vegetais e animais encontrados no interior do texto e aumentados, a parte fértil dos textos onde se confundem os movimentos que o chão tem contigo e o estatismo das paredes do quarto. A tua cabeça está bem ajustada; quer à minha fraqueza, quer à minha força. Eu só ouço o ruído da vida.
[imagem = Julian Schnabel - Untitled, 2007]
21 Junho 2009
2

Sinto-o vivo, um ser que foi para dentro do texto munido de uma grande memória, Reacende os olhos com as mãos ao observar que manipula em magia o extremo poder dos símbolos de todo o corpo, o passado e o presente da pele, o presente e o futuro da cabeça. A experiência que o poema é lança-se na interrupção da continuidade sem eliminação. Eu tenho a cara aberta como os outros animais quando eles te imitam no resgate de um tempo anterior, rememoração, a narração do romance distribuído, e é nesta falha que transformo o meu tempo noutro poema. Encontrar um texto novo como direcção é deparar-me com os teus textos dentro de um bicho que me fala de um corpo orgânico que participa na vida e na morte. Qual é a unidade de evolução da tua animalidade?
[imagem = Julian Schnabel - Untitled, 2007]
19 Junho 2009
∏

O que nos costuma paralisar na actualização da narrativa de baixo, as imagens que se diferenciam radicalmente do passado analfabeto, o movimento da escrita quando termina o texto que insiste em se ocultar como um universo submerso. Há uma imobilidade com possibilidade de mudança, um buraco revolvido através de uma gramática com o som do chão. Tens no teu espaço um clarão a empurrar palavras para dentro do teu corpo; animaliza-o para explicar um texto escrito dentro de outro texto, aquilo que faz o texto com o barulho das suas palavras. Abismas-te como caminho para o renascimento concêntrico. Se te guias pelo princípio da subtração, estás inevitavelmente associado à minha morte.
[imagem = Julian Schnabel - Untitled, 2007]
18 Junho 2009
17 Junho 2009
Tocar na cara às escuras o que a morte já tocava

Eu sei que é um instrumento para tomar de peso o corpo; uma pancada no fundo do chão para quem no movimento se possa abandonar a poesia feminina da boca. Tens um martelo trabalhado no sangue, a madeira escaldada na pele pelas luzes juntas pelo meu corpo, a água a cair sobre todo o corpo parado pela carne transcendente.
Começa o tempo escuro.
Onde é que está o caminho para os olhos entrarem nas cores e se aperceberem da vocação do abandono da voz dura?
Começa o tempo escuro.
Onde é que está o caminho para os olhos entrarem nas cores e se aperceberem da vocação do abandono da voz dura?
[imagem = sem-título #009 (HELDER, H. - Ofício cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 417-418)]
15 Junho 2009
13 Junho 2009
10 Junho 2009
08 Junho 2009
06 Junho 2009
[Sem título]

Since we do not have ground-truth to estimate all possible poses, we do this.
[imagem = Terence Koh - These Decades that We Never Sleep, Black Light, 2004]
04 Junho 2009
03 Junho 2009
[Janela]

Pode ser um sítio antigo com um obscuro encanto sobre a imaginação, vários corpos que o conseguem descrever, todas as divisões da casa como continuação do quarto apertado. Quando o dia começa, acompanha-o um historiador de sonhos para um mundo inferior, o regresso da família à volta de alimentos apertados por mãos duras, os ditos para encontrarem a luz dos traços da pele. A sua vida não é histórica, é ritual, a sombra não tem tido mudanças mas sim um ritmo repetitivo do passado.
[imagem = imagem roubada]
[imagem = imagem roubada]
02 Junho 2009
•

Ríspido, zoológico,
olho de constelação vendo o quê na rapina celeste?
- mas o cego buraco negro
é que devora constelações inteiras.
HELDER, H. - Ofício Cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 502.
[imagem = Celestron C6-N, 20mm. eyepiece, ISO200, 15" of exposure and 3x optical zoom]
01 Junho 2009
Atravessa a água até ao fundo da estrela

Atravessa a água até ao fundo da estrela.
O buraco sopra:
de trás de quê, como, de que coisa entreaberta?
À sombra dessa estrela - como se chama:
inominável?, ou correndo em bica:
banha-o. Ou a vibrar dos quadris às espáduas
desdobra
uma peça de luz. Ou com os braços ritmicamente
dentro dela, estrela esbracejada, nada
até ao fundo da sua luz, da sua água.
Que cega, afoga.
HELDER, H. - Ofício Cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 500.
[imagem = Vija Celmins - Untitled, 2005]
31 Maio 2009
1819-2009

[1]
Para bens de tal forma importantes que geram nele um espanto capaz de orientar o seu próprio agir sobre a Natureza, uma interacção de tal forma vivida que Whitman acredita numa dependência do conjunto da Natureza e começa assim a defender a mesma que não inventou, que avança em procissão [2]. A Natureza surge com a grandeza que lhe é peculiar, total e local, e desta totalidade e localidade encontramos muitas vezes os textos cujo significado se revestem de fortes ressonâncias da Natureza.

[3]
É uma substituição por um imenso tu que se ama em cada acontecimento, sem afastar totalmente Deus, mesmo sabendo que Deus vive nele um tempo obscuro de esquecimento [4], recuperando-lhe os sinais ancestrais que o implicam em relação com o outro que também pela carne se afirma em afinidade.
É uma substituição por um imenso tu que se ama em cada acontecimento, sem afastar totalmente Deus, mesmo sabendo que Deus vive nele um tempo obscuro de esquecimento [4], recuperando-lhe os sinais ancestrais que o implicam em relação com o outro que também pela carne se afirma em afinidade.
Como Emerson diz, vivemos no colo de uma inteligência imensa, recebemos a sua verdade e somos órgãos da sua actividade porque em qualquer lugar se revelam as perfeições da Natureza até nos re-civilizarmos.


[5]
[1] Fotografia de Thomas Eakins, Whitman em Filadélfia, 1880-1885.
[2] DELEUZE, G. - Crítica e clínica. Lisboa: Edições Século XXI, 2000, p. 82.
[3] Manuscrito: Last of ebb, Yale Collection of American Literature, Beinecke Rare Book and Manuscript Library, 1885.
[4] WHITMAN, W. - Canto de mim mesmo. Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 77.
[5] Transcrição de Last of ebb.
29 Maio 2009
(Sem título)

2009 (2010)
1979 (1980)
O objectivo da noite é a transformação da carne (que jejua mar e terra) para espírito, o cuidado da conservação da luz apagada revelar na sombra dos objectos acções altas (maiores). Tem de se vencer o espaço que aparece para cegar os olhos e lhes dar outra cor, o movimento egocêntrico da cabeça que nos ama se se encontra por cima do corpo com outro corpo (pode apresentar uma forma segura e partir para a metáfora).
Tudo se ergue contra tudo com verdades situadas na verdade, o que simultaneamente adia e aproxima a criação porque interroga e responde. Onde estão parênteses vejam-se travessões (de um diálogo).
[imagem = Mark Rothko - Untitled, 1969-70]
1979 (1980)
O objectivo da noite é a transformação da carne (que jejua mar e terra) para espírito, o cuidado da conservação da luz apagada revelar na sombra dos objectos acções altas (maiores). Tem de se vencer o espaço que aparece para cegar os olhos e lhes dar outra cor, o movimento egocêntrico da cabeça que nos ama se se encontra por cima do corpo com outro corpo (pode apresentar uma forma segura e partir para a metáfora).
Tudo se ergue contra tudo com verdades situadas na verdade, o que simultaneamente adia e aproxima a criação porque interroga e responde. Onde estão parênteses vejam-se travessões (de um diálogo).
[imagem = Mark Rothko - Untitled, 1969-70]
[Sem título]

Uma língua antiga cheia de sonoridades e uma separação entre língua e canto difícil porque ambas são paixão, necessidade de sentimentos que encontra a sua expressão na sua sonoridade. Língua com as palavras abafadas pelos sentimentos, olhos, ouvidos, tudo isto espiritualizado segundo cada dia indivisível, sólido, aquilo que mais entra e compõe o espírito do corpo. Nada se terá alterado nos animais que tiveram de morrer de todos os lados. A obscuridade abrange a parte mais conhecida que se encontra no corpo e pouco a pouco a língua separa-se da língua da sonoridade e a actividade da imaginção começa a mostrar que toda a coisa pode ser transformada noutra coisa.
[imagem = Karla Black - Expressions are hurting, move outside, 2008]
[imagem = Karla Black - Expressions are hurting, move outside, 2008]
28 Maio 2009
└

Estava já em acto como meio de movimento, destruído quando a explosão se dava nas imagens de todos os lados sem esconderem nada. Sem dizer nada encontra lábios duros, bocas recordadas, bocas abertas a separarem ar quente e o lamento de alguns dentes apertados. As mãos que se ouvem com mais força desaparecem para se limpar. Quem o vê acreditava que ele vê, que naquele canto da casa se encontra a mesa para vigiar a elevação da noite, um nome encontrado por outro nome no final de cada frase. Tem o corpo atento a todo o quarto pelo movimento da imaginação, o ciclo de se alimentar sozinho para rodar todos os líquidos e conhecer intimamente antes que conheça o que com ele se conhece do real.
[imagem = Sem-título #002, 2009]
27 Maio 2009
[Nau]
Agitata da due venti,
freme l'onda in mar turbato
e l'nocchiero spaventato
già s'aspetta a naufragar.
Dal dovere da l'amore
combattutu questo core
non resiste a par che ceda
e incominci a desperar.
23 Maio 2009
┌

Aceita para trás a respiração das árvores espessas como se ela não movesse ar, não tivesse um espaço aberto. Explica o avanço do corpo para o fundo do quarto com um cheiro esquisito contra as paredes para ver a carne como carne morta. Conhece o quarto onde dorme quando não há ninguém nele a abrir-se. Sabe de cor os gestos que não pode ter, as armas que se tornaram impossíveis de usar. Conhece a cabeça de aspecto torturado, nua enquanto forma acabada no silêncio. Entre a ficção e a realidade, tem estado seca pelo espaço.
[imagem = Sem título #003]
[imagem = Sem título #003]
22 Maio 2009
[Sem título]

He is reducing text to the bare minimum, small images intentionally barred, parts cannot be seen at all. At a rate of erasure, the text evokes polarities of building and destrying, displacement and migration, and between new images and text there's another circular work, a large position on the ground. I can see this, the impossibility of not writing, yet, this leaves us in a old problem: his body as part of my body.
1. Lithography of T. Vivares after T. Smith
2. Primary and secundary colors + #920809
[imagem = Sem título # lithographie III, 2009]
21 Maio 2009
Prancha

Parece começar todas as frases por baixo da natureza. Tem só metade da terra porque o corpo ainda não ganhou toda a atenção das pedras, o que o fixa em todas as memórias líquidas. Olha para a energia gasta quando desfaz a pele nos tecidos, quando o quarto lhe esconde os alimentos nas nódoas do chão. Onde é que está o teu lugar de passagem para a intimidade, o princípio da metáfora para se poder escrever sobre a passagem do pão para dentro do corpo?
Fora dele não há ninguém a ouvi-lo porque nunca se cala na sua mão fechada.
Fora dele não há ninguém a ouvi-lo porque nunca se cala na sua mão fechada.
[imagem = Prancha # 06, 2008]
20 Maio 2009
┘

A possibilidade de encarnar o drama para dizer outra coisa dentro de outro texto, gestos desesperados de quem se levanta numa raiz e ganha terra ocupando as mãos com uma nova pintura, uma nova deformação da figura. Cá fora está o som que ajuda os corpos a fazerem ruído, a medida exacta do interior que lembra a todas as coisas o caminho de morte. Para todos há o fim de um novelo que habitam, os olhos com as mesmas curvas. As mãos podem juntar tudo por baixo da pele, podem tirar tudo de um espaço que não fale para outro que fale baixo, podem ficar sozinhas depois de um certo tempo como elemento principal da paisagem.
[imagem = Simone Nieweg - Gepflugter Acker, Neuss-Kapellen, 2001]
18 Maio 2009
[Sem título]

He says that blackness seems very easy and visible when you start to talk about it. I don't now. This text is from whiteness and it seems that white disappear when you start to write about it. The more I go with this, the blacker and denser the surface of the paper becomes. Things that seem normal are difficult to see, this text still remains fragmentary. The hand steps in and out to many times of the paper.
1. Lithographie Wagenbauer Heft I Blatt 20-5.
2. Primary and secondary colors + #a1090b.
2. Dialogue.
[imagem = A. R. - Sem título # Lithographie II, 2009]
1. Lithographie Wagenbauer Heft I Blatt 20-5.
2. Primary and secondary colors + #a1090b.
2. Dialogue.
[imagem = A. R. - Sem título # Lithographie II, 2009]
17 Maio 2009
Jo 15, 9-17
Tem de se saber que é. Tem de ser um gesto extremo que leve todo o corpo para a frente quando falo, quando me calo na altura de um cadáver que muitas vezes se experimenta com alegria. A cruz não é apenas um gesto solitário para aumentar uma sombra, mas o constante movimento "por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo, e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor."[1] Já se vê a alegra completa que se usa naquele que está ao meu lado com vida, vê-se o testamento ficar e ser herdado.
[1] HELDER, H. - Ofício Cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 48.
[imagem = Julian Schnabel - Hawai Islands, 2007]
16 Maio 2009
[Sem título]

He sets for himself is own self-doubt that questions his own existence. His image is part of my images of future. Every day, I move the body to another to be found.
1. Lithographie Wagenbauer Heft I Blatt 18-3.
2. Primary and secundary colors + #ac0a0b.
3. A process of subtraction: grade.
[imagem = A. R. - Sem título # Lithographie, 2009]
15 Maio 2009
┐

À medida que avança para o fundo sombrio do quarto percebe melhor a escuridão. Com rápidas alternâncias de fúria e de ternura imita os cantos, a música que volta ao presente do homem de costas para os outros. Entra e toca numa altura que tinha escrito com os olhos míopes para entrar no quarto quando sabe ser incapaz de ficar nele. Transporta consigo aquele que se conhece morto num tempo de naufrágio. Pensava que tinha um pedaço de terra firme debaixo dos pés com os restos das mãos, ao ponto do chão permitir a identificação das mãos que estão por baixo.
[imagem = José Luís Neto - High speed press plate (#8), Ed. 1-3, 2006]
14 Maio 2009
[B-W.]

5. Será nebuloso o que vela as formas e as oculta porque ofusca a luz e a sombra?
6. Não é o branco o que suprime a escuridão?
[imagem = Hiroshi Sugimoto - Cambrian Period, 1992]
[WITTGENSTEIN, L. - Anotações sobre as cores. Lisboa: Edições 70, 1996, p. 41]
13 Maio 2009
[Suction]

- Alternately laughing, staring in disbelief, or looking into the bedroom to grasp their own momentary chance to be someone.
[imagem = Hermann Nitsch - Splatter Painting, 1990]
12 Maio 2009
[Sem título]

Não tem de ser água. No corpo marcado por todas as mortes dobrando o tempo há outros líquidos. O primeiro contacto com o corpo antes de o perceber na intimidade pode ter a destruição da luz na insistência de haver um espaço escuro. Antes de dizeres o nome de outro, conhece sempre o que está atrás de ti. É evidente que, o pensamento que é clareza e distinção, só clareza e distinção pode encontrar.
[imagem = Julian Schnabel - Untitled (Surfer), 2008]
[imagem = Julian Schnabel - Untitled (Surfer), 2008]
11 Maio 2009
Ą³
Está onde ainda não vemos, como se fosse uma pedra apertada na terra ou um animal mergulhado na carne sem espalhar sangue. Tem covas em vez de mãos e as palavras escuras que crescem dentro misturam-se com a própria sombra da qual se podem extrair outras menores. Pode morrer no frio sem posses, pode entrar num livro que retoma muitos outros. Serve para dar passagem durante algum tempo até à incerteza de aprender algo por habitar.
É lançada num corpo único e a raiz e a sombra fecham-na da terra ao céu.
É lançada num corpo único e a raiz e a sombra fecham-na da terra ao céu.
09 Maio 2009
Surfing
Não tem de ser água. Uma massa sonora que se dirige ao tempo não tem de se enrolar sempre à minha frente com o mesmo sentido, com o modo de pôr em relação aquilo que nele antes ficava distante ou separado.
A uma tribo corresponde exactamente um dialecto.
A uma tribo corresponde exactamente um dialecto.
º

O quarto está ao lado do informe, do inacabado. Ficar no quarto é uma tarefa de devir, fecha-se a porta e tem-se a mesma altura da parede, o mesmo pó do chão sempre a fazer-se e que atrai toda a matéria. Quando a pele seca o tem por todo o quarto não se encaminha noutro sentido. Apresenta-se como uma forma de expressão dominante para dentro de si até se poder distinguir o que o quarto fecha e baixa até ao seu espaço indefinido. O que lhe diz o tecto é igual ao que ele guarda ao acabar o som. A presença da mãe nele é avassaladora em aparições e máscaras inéditas.
Só vais começar outra vez a limpar-te quando nascer uma terceira pessoa que te tire o poder de dizer «eu».
[imagem = Cy Twombly - No. I, 1974]
Só vais começar outra vez a limpar-te quando nascer uma terceira pessoa que te tire o poder de dizer «eu».
[imagem = Cy Twombly - No. I, 1974]
08 Maio 2009
[ ]
b....boca cheia de areia estrita, áspera cabeça
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar
......................................................................................[redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpala,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura – e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,"
[HELDER, H. - Ofício Cantante: poesia completa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 595.]
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar
......................................................................................[redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpala,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura – e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,"
[HELDER, H. - Ofício Cantante: poesia completa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 595.]
┬

Deixou de mostrar que toda a pele pode ser transformada noutra pele, noutra língua com menos palavras para o bem. Com todo o esquecimento de um lado para o outro. É interessante notar que, na descrição do corpo, ou pelo menos na tentativa de o descrever, abandona a sua saída. Afasta-nos da luz; representa uma pedra e o resto da sombra inseparavelmente dura à sua volta. A força da luz está só na língua que o atravessa e estica, não só para a alimentar, mas também para a guardar nos líquidos quimicamente mornos da boca fechada.
Tem uma altura nova para o espaço interior da boca perguntar: meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Todas as pedras e todas as sombras movem-se na escuridão com a sua luva.
[imagem = Brice Marden - Plate F from Adriatics, 1973]
Tem uma altura nova para o espaço interior da boca perguntar: meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Todas as pedras e todas as sombras movem-se na escuridão com a sua luva.
[imagem = Brice Marden - Plate F from Adriatics, 1973]
07 Maio 2009
¦
O texto que vem movimenta-se em seco, com palavras escuras e palavras claras que lhe deste para um fim que só ele utiliza. Faz falar uma outra pessoa ou fala de um espaço que lhe é estranho por não ter ninguém perto, uma massa sonora parada. Mostra-lhe a tua mão roída até à extremidade, a arte de substituição dentro de um monólogo gasto.
Se se acumulam palavras em cima de palavras no comprimento do texto que fala do teu corpo, então acompanha-te a obscuridade. A certeza do som é entendida quase sempre pela sua ausência.
Se se acumulam palavras em cima de palavras no comprimento do texto que fala do teu corpo, então acompanha-te a obscuridade. A certeza do som é entendida quase sempre pela sua ausência.
06 Maio 2009
Ą²
"connosco.
...................― São outros mortos ainda.
Vê tu a árvore; uma camada de flor ― um grito,
outra camada de flor ― outro grito.
Sob o fluido eléctrico, o quintal
tresnoita. Até o escuro se eriça. Há diálogos
formidáveis na obscuridade."
[HELDER, H. - Ofício cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 231]
...................― São outros mortos ainda.
Vê tu a árvore; uma camada de flor ― um grito,
outra camada de flor ― outro grito.
Sob o fluido eléctrico, o quintal
tresnoita. Até o escuro se eriça. Há diálogos
formidáveis na obscuridade."
[HELDER, H. - Ofício cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 231]
Ą
"Todos nós somos árvores. Há que tempos que deitamos flores pelo lado de dentro. Fomos sempre construções vivas, árvores estranhas que bracejavam para o interior do tronco, ramos e tinta, mais ramos desmedidos e tinta, revestidos de casca pelo lado de fora. Foi por dentro que crescemos, e só por dentro nos era lícito crescer, cada vez mais alto até a morte intervir.
Até as árvores estranhas, até as árvores só tronco, que metiam os ramos e a tinta para o interior, bracejavam à custa de gritos, ramos e tinta, ramos desmedidos e tinta para o lado de fora."
Até as árvores estranhas, até as árvores só tronco, que metiam os ramos e a tinta para o interior, bracejavam à custa de gritos, ramos e tinta, ramos desmedidos e tinta para o lado de fora."
BRANDÃO, R. - Húmus. Lisboa: Público/Porto Editora, 1991, p. 155.
[ ]
Nos primeiros actos dos apóstolos, os que se dispersaram tinham a palavra lenta, silenciosa. Ao mesmo tempo punham no lugar do que é dito a causa pela qual falavam e pela primeira vez começaram a ser tratados pelo nome de «cristãos». Não pararam em frente a um muro nem olharam para uma simples porta: passaram por um pórtico.
Da parte d'Ele só se sai em resposta. O apóstolo nunca pode reapoderar-se de si de maneira a tomar consciência da sua vocação como desenvolvimento natural. Toda a sua vida, toda a sua vocação permanece fora da sua identidade pessoal. O seu corpo avança e recua nos fragmentos de Deus. Vai encontrar aquilo que lhe escapa quando lê a palavra que o lê.
[imagem = Julian Schnabel - Christ’s Last Day, ATTO II, 2008]
Da parte d'Ele só se sai em resposta. O apóstolo nunca pode reapoderar-se de si de maneira a tomar consciência da sua vocação como desenvolvimento natural. Toda a sua vida, toda a sua vocação permanece fora da sua identidade pessoal. O seu corpo avança e recua nos fragmentos de Deus. Vai encontrar aquilo que lhe escapa quando lê a palavra que o lê.
[imagem = Julian Schnabel - Christ’s Last Day, ATTO II, 2008]
05 Maio 2009
я

Fala de dentro do quarto no momento em que o espaço o puxa e o baixa. Tem todo o chão o olhar para ele; explica-lhe como se estende até ao corpo e o aranha e marca. O que mais se assemelha aqui não é um espaço físico decrescente mas sim um espaço biográfico crescente. Fecha os olhos, recolhe-se, fecha um círculo duro. Desce por si mesmo onde é preciso descer e entra onde é preciso entrar. Todo ele é um instrumento seco e violento quando o quarto se encontra no ponto escuro e infertilidade máximas. O seu poder envolvente vem em grande parte da capacidade em abafar sons, diminuir luz, travar o ar.
Acabarás por te transformar num quadrado nunca tocado, no aumento da metáfora sentada.
[imagem = sem título #1, 2009]
Acabarás por te transformar num quadrado nunca tocado, no aumento da metáfora sentada.
[imagem = sem título #1, 2009]
04 Maio 2009
¬

Não se pode ver a lua se se é a própria lua; o que vê não pode ser o visto porque o visto é o que se vê.
[imagem = José Luís Neto - High speed press plate (#6), Ed. 1-3, 2006]
Para já, a morte só está na tua boca

- Não consegue ultrapassar a solidão. Está à procura e essa procura decorre solitariamente na opacidade do quarto fechado. Não há mãos lá dentro; há a arte de fundir em estado líquido o corpo, a elevação de uma memória, o ar. Conhece os tecidos carregados, apertados, as pequenas sombras das dobras bem perto das rugas atormentadas. Há uma inclinação nova entre a conversão e dispersão, há curvas originais da pele a iniciarem novos símbolos. Descreve as etapas da ascese em todos os alimentos, procura em cima da mesa sinais de comunicação quando reconhece as caras que com ele começam a refeição. Bate as palmas das mãos devagar, ouve o som seco que o carrega para baixo e pergunta: qual é o som de uma mão sozinha?
- Quem é que está assim?
- Quem tem boca.
- Quem é que está assim?
- Quem tem boca.
[imagem = John Isaacs - Are we not the same you and i (Single Panel of Diptych), 2003]
[ ]

A via do silêncio. A necessidade de o explorar como quem entra na noite: contra o corpo,
contra a voz.
[imagem = Agnes Martin - Untitled #2, 1998]
What now?
Estou a ouvir Colorado dos Grizzly Bear e sou capaz de ficar aqui algum tempo. A música contém em si elementos reconhecíveis: descidas, subidas, a repetição de um pedido, perguntas por a incapacidade de se verbalizar uma experiência estar a acontecer. Há horizontes que não devem ser vistos.
[www.myspace.com/grizzlybear]
[www.myspace.com/grizzlybear]
03 Maio 2009
[ ]
Na Missa levantamo-nos, sentamo-nos, estamos virados para o mesmo lado. Ouvimos, falamos, temos gestos que não compreendemos e outros que compreendemos. A Missa não é muito diferente do que vivemos no dia-a-dia e só assim deve ser. Não vou à Missa para resolver nada, é apenas uma passagem, uma inquietação. Sou incapaz de dar uma passo para fora da Igreja, fico parado no lugar que é, como diz Yves Bonnefoy, um movimento extremamente lento, lugar que compromete cada um dos intervenientes.
Hoje percebemos muito bem esta metáfora que é toda a humanidade se ver dentro de um rebanho. Pomo-nos num presente extremamente fixo onde cada palavra tem mais à frente outra palavra, que a continua, a prolonga, a máxima visão: Cristo. Não há outro nome, não há outro corpo como Ele. Quem é que não consegue ver isto?
[imagem = Julian Schnabel - Port Hueneme to Santa Barbara, 2007]
+
Sou um lugar carregado de cactos junto à água, lua,
os animais com um clarão na boca, sou
uma ciência a sangue.
HELDER, H. - Ofício Cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 419.
os animais com um clarão na boca, sou
uma ciência a sangue.
HELDER, H. - Ofício Cantante. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p. 419.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















